Escrevo este primeiro artigo
ainda no período de rescaldo de umas eleições municipais e autonómicas
históricas em Espanha. Não só pelo seu resultado e significância política face
à conjuntura socioeconómica vivida nos países da Europa do Sul – deixarei esse
assunto para futuros posts – mas também pelo seu significado em termos de igualdade de género e luta feminista.
Pela primeira vez, as duas
maiores cidades do país – Madrid e Barcelona – serão (em coligação, no caso de Carmena) governadas por mulheres
provenientes de movimentos cidadãos e não de estruturas partidárias. Sim, eu
sei, Ana Botella e Esperanza Aguirre (ex-alcaldesa e candidata derrotada nas
eleições de Madrid, respectivamente) também são mulheres, mas ao serviço de
máquinas políticas que promovem a corrupção e o conservadorismo legislativo –
em caso de dúvida, consultem a malograda proposta de lei do aborto Gallardón, subscrita
(!) e aplaudida (!!!!) por membros femininos do Partido Popular. E esta
diferença face aos seus antecessores é digna de alguma reflexão.
Não cairei no erro – fácil e
tentador, admito-o – de acreditar que estas duas mulheres vão, de uma penada
só, resolver todos os problemas com que os seus municípios se deparam. Manuela Carmena
(reputada jurista e ex-militante comunista até inícios dos anos 80, que poderá,
em coligação com o PSOE, ser alcaldesa de Madrid) e Ada Colau (conhecida
activista catalã pelos direitos sociais e fundadora do movimento anti-despejos)
sabem-no muito bem. As malhas de corrupção política e podridão de carácter
deixadas pelos seus antecessores são muito difíceis de desembaraçar. Em Madrid,
os gastos multimilionários em projetos pouco ou nada lucrativos para os seus
habitantes e as sucessivas denúncias de corrupção e lavagem de dinheiro de
membros do Governo – todos eles ligados de uma forma ou outra ao Ayuntamiento –
revelar-se-ão uma autêntica dor de cabeça. O mesmo para Ada Colau, agora
alcaldesa de uma localidade onde, à semelhança de toda a região autonómica da
Catalunha, os desejos de independência face ao Estado espanhol (ainda que
totalmente legítimos e largamente defendidos pela maioria dos eleitores) foram
convenientemente usados pela elite política catalã para desviar as atenções de problemas sociais urgentes, tais como os cortes no sistema de saúde
pública e a crescente vaga de despejos que se reflecte um pouco por toda a
Espanha.
Assim sendo, podemos ver que a
tarefa destas duas mulheres é, no mínimo, hercúlea. Não basta (usando uma
metáfora largamente difundida pelo PODEMOS, partido de esquerda radical que
apoia as duas candidatas) derrubar Golias e vê-lo cair com a força da pedrada
na cabeça. Há que carregar e enterrar o cadáver do gigante. E isso é uma tarefa
que requer força e, sobretudo, tempo (sendo este último, como sabemos, tão
efémero e relativo em questões políticas). Contudo, não posso deixar de sorrir
com alguma esperança ao ver duas mulheres desafiar e vencer um sistema político
feito cada vez mais por e para homens (sobretudo quando governado por partidos
de centro/direita). No caso de Manuela Carmena, mostrando (do alto dos seus
mais de 70 anos) que a juventude, mais do que tudo, é um estado de espírito e
que a vontade de mudança e trabalho não conhece idade. No caso de Ada, que foi
publicamente criticada por mais de um meio de comunicação espanhol por coisas
tão (ir)relevantes para a sua proposta política como o facto de ser mais roliça
do que as normas socialmente impostas nos “ditam”, as roupas descontraídas que
vestia ou – imagino sempre Frida Kahlo indignando-se muito desde o túmulo – o facto
de ter sobrancelhas farfalhudas, é uma vitória ainda mais saborosa.
Num país ainda dominado pelo
machismo inerente não só à política, como também aos media (desafio-vos a
comparar por alguns segundos as “medidas” de apresentadoras de televisão e
perceberão onde quero chegar) e onde o “compadrio” reina em todas as esferas
políticas, Carmena e Colau impõem-se como uma lufada de ar fresco. Durará
muito? Servirá para “arejar” eficazmente um sistema político bafiento? Não se
sabe ainda. Era necessária e bem-vinda depois de décadas de seca extrema em termos
político-ideológicos? Sem dúvida. Diz o povo português que “de Espanha, nem bom
vento nem bom casamento.” Quanto à parte dos casamentos não sei, mas espero
sinceramente que o vento esteja a mudar e seja um pouco menos agreste.
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