sábado, 6 de junho de 2015

As mulheres e a política: orgulhosamente agressivas

Uma das coisas que mais me irritam na política – além daqueles argumentos contra as “quotas de mulheres” no Parlamento (que por si só são disparatadas na medida em que são vistas como o que se chama “fazer o frete” quando deviam ser um direito) – são as frequentes acusações de “agressividade” dirigidas contra mulheres com alguma notoriedade político-partidária. Criticam Catarina Martins (BE) por ser “demasiado agressiva” nas suas críticas a Passos Coelho, criticam Marisa Matias (GUE-NGL) por ser demasiado eloquente nas suas intervenções no Parlamento Europeu, criticam Heloísa Apolónia (PEV) pelos mesmos motivos e até Odete Santos (PCP), na sua altura, teve que levar com esse tipo de estereótipo. Nem Mariana Mortágua (BE) escapa. Apesar do seu (competentíssimo) trabalho à frente da Comissão de Inquérito ao “caso BES”, aceitem um conselho meu: não leiam os comentários ao Facebook do Expresso sempre que a Mariana lá escreve. Entre os elogios ao seu trabalho e posições políticas, encontramos “pérolas” que nos fazem pensar seriamente se o ser humano evoluiu mesmo ou se há gente que nunca saiu da Pré-História.

Não querendo aqui politizar ainda mais a questão e fazer notar que este tipo de discurso se dirige principalmente às mulheres de esquerda – mesmo sendo verdade – estas acusações soam-me a um chauvinismo e machismo gritante. Não basta serem poucas (em comparação aos representantes masculinos), ainda têm que fazer pouco barulho? Por acaso são cachorrinhos de estimação, a quem atiramos um osso para morderem e não ladrarem demasiado alto para acordar os vizinhos?
Já basta o trabalho acrescido (e o enxovalho moral de quem acha que as mulheres só sobem na carreira abrindo as pernas, que é outra coisa que me põe fora de mim) que acarreta a eleição de uma mulher para um cargo de alta responsabilidade. Excluo Assunção Esteves deste rol por questão de princípio, uma vez que não aceito que uma Presidente de uma Assembleia da República paga e eleita com o dinheiro dos contribuintes os mande calar durante as sessões, fazendo comentários desagradáveis a respeito da liberdade de expressão que não são admissíveis a alguém na sua posição. Não, não. Não basta terem direito a sentar-se na Assembleia: têm de o fazer silenciosamente. De preferência bem sentadas, de costas direitas, “como uma senhora”. Se ousam levantar o tom de voz, são consideradas “agressivas”. Se Catarina, Heloísa ou Mariana levantam a voz, são consideradas “histéricas” (e contra a Mariana joga o argumento da idade, como se juventude fosse sinal de estupidez e falta de capacidade intelectual). Se Marisa Matias defende aguerridamente as suas posições no Parlamento, leva com a mesma etiqueta (e ainda para mais tem a voz grave, deve ser um incómodo nos ouvidos delicados dos grupos de direita).


E assim, meus amigos, muitos tentam “arrumar para canto” mulheres competentes, inteligentes, mulheres que se recusam a compactuar (em Lisboa ou em Bruxelas) com medidas de austeridade insanas que nos apertam cada vez mais a corda ao pescoço. O que vale é que elas não se ficam. Por isso, o meu desejo é: continuem a levantar a voz. Continuem a protestar. Continuem a lutar contra quem vos silencia porque falam demasiado alto e sobre assuntos incómodos. E, da próxima vez que alguém vos chamar “histéricas”, “agressivas” ou “radicais”, façam um favor a toda a gente que vos segue e que em vocês se vê representada: digam que sim. Que são, realmente, agressivas. E com muito orgulho. 

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