Uma das coisas que mais me irritam na política – além daqueles
argumentos contra as “quotas de mulheres” no Parlamento (que por si só são
disparatadas na medida em que são vistas como o que se chama “fazer o frete”
quando deviam ser um direito) – são as frequentes acusações de “agressividade”
dirigidas contra mulheres com alguma notoriedade político-partidária. Criticam
Catarina Martins (BE) por ser “demasiado agressiva” nas suas críticas a Passos
Coelho, criticam Marisa Matias (GUE-NGL) por ser demasiado eloquente nas suas
intervenções no Parlamento Europeu, criticam Heloísa Apolónia (PEV) pelos
mesmos motivos e até Odete Santos (PCP), na sua altura, teve que levar com esse
tipo de estereótipo. Nem Mariana Mortágua (BE) escapa. Apesar do seu
(competentíssimo) trabalho à frente da Comissão de Inquérito ao “caso BES”,
aceitem um conselho meu: não leiam os comentários ao Facebook do Expresso
sempre que a Mariana lá escreve. Entre os elogios ao seu trabalho e posições
políticas, encontramos “pérolas” que nos fazem pensar seriamente se o ser
humano evoluiu mesmo ou se há gente que nunca saiu da Pré-História.
Não querendo aqui politizar ainda mais a questão e fazer
notar que este tipo de discurso se dirige principalmente às mulheres de
esquerda – mesmo sendo verdade – estas acusações soam-me a um chauvinismo e
machismo gritante. Não basta serem poucas (em comparação aos representantes
masculinos), ainda têm que fazer pouco barulho? Por acaso são cachorrinhos de
estimação, a quem atiramos um osso para morderem e não ladrarem demasiado alto
para acordar os vizinhos?
Já basta o trabalho acrescido (e o enxovalho moral de quem
acha que as mulheres só sobem na carreira abrindo as pernas, que é outra coisa
que me põe fora de mim) que acarreta a eleição de uma mulher para um cargo de
alta responsabilidade. Excluo Assunção Esteves deste rol por questão de
princípio, uma vez que não aceito que uma Presidente de uma Assembleia da
República paga e eleita com o dinheiro dos contribuintes os mande calar durante
as sessões, fazendo comentários desagradáveis a respeito da liberdade de
expressão que não são admissíveis a alguém na sua posição. Não, não. Não basta
terem direito a sentar-se na Assembleia: têm de o fazer silenciosamente. De
preferência bem sentadas, de costas direitas, “como uma senhora”. Se ousam
levantar o tom de voz, são consideradas “agressivas”. Se Catarina, Heloísa ou
Mariana levantam a voz, são consideradas “histéricas” (e contra a Mariana joga
o argumento da idade, como se juventude fosse sinal de estupidez e falta de
capacidade intelectual). Se Marisa Matias defende aguerridamente as suas
posições no Parlamento, leva com a mesma etiqueta (e ainda para mais tem a voz
grave, deve ser um incómodo nos ouvidos delicados dos grupos de direita).
E assim, meus amigos, muitos tentam “arrumar para canto”
mulheres competentes, inteligentes, mulheres que se recusam a compactuar (em
Lisboa ou em Bruxelas) com medidas de austeridade insanas que nos apertam cada
vez mais a corda ao pescoço. O que vale é que elas não se ficam. Por isso, o
meu desejo é: continuem a levantar a voz. Continuem a protestar. Continuem a
lutar contra quem vos silencia porque falam demasiado alto e sobre assuntos incómodos.
E, da próxima vez que alguém vos chamar “histéricas”, “agressivas” ou “radicais”,
façam um favor a toda a gente que vos segue e que em vocês se vê representada:
digam que sim. Que são, realmente, agressivas. E com muito orgulho.
Sem comentários:
Enviar um comentário